30 ANOS DA TRAGÉDIA
Há 30 anos, tragédia da TAM interrompia a trajetória do comandante Moreno
José Antônio Moreno tinha 35 anos, era filho do então vice-prefeito da cidade e comandava o Fokker 100 que caiu em São Paulo, deixando 99 mortos
Publicado em
31/10/2026 às 12:01
Atualizado em
Há exatos 30 anos, em 31 de outubro de 1996, o comandante José Antônio Moreno, natural de Mogi Mirim, assumia o comando de um Fokker 100 da TAM para um voo que deveria durar pouco mais de uma hora. Aos 35 anos, com aproximadamente 9 mil horas de voo e uma carreira consolidada na aviação comercial, ele estava à frente da aeronave que partiria de São Paulo com destino ao Rio de Janeiro. Apenas 24 segundos depois da decolagem, o avião caiu sobre uma área residencial da capital paulista, provocando a morte de 99 pessoas e entrando para a história como uma das maiores tragédias da aviação brasileira.
O acidente com o voo 402, ocorrido na manhã daquela quinta-feira, marcou profundamente o país e teve repercussão particular em Mogi Mirim. Moreno era filho de José dos Santos Moreno, conhecido como Mogiano, então vice-prefeito do município. Sua morte atingiu uma família conhecida na cidade e interrompeu a trajetória de um piloto que havia transformado a paixão de infância pela aviação em profissão.
Três décadas depois, a história do comandante mogimiriano permanece ligada não apenas à tragédia, mas também às investigações que revelaram falhas no funcionamento da aeronave e contribuíram para mudanças nos procedimentos de segurança da aviação.
O menino que observava os aviões no céu de Mogi Mirim
José Antônio Moreno cresceu em uma fazenda da família em Mogi Mirim. Ainda criança, demonstrava interesse por aviões e costumava observar as aeronaves que cruzavam o céu enquanto participava das atividades da propriedade rural.
Em reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em novembro de 1996, sua irmã, Maria Ângela Moreno Cossi, recordou que, aos 11 anos, ele já dirigia tratores na fazenda, mas mantinha os olhos voltados para o céu.
A insistência do menino em conhecer de perto a aviação levou o pai a alugar um pequeno avião para proporcionar ao filho a experiência de voar. O passeio ajudou a consolidar uma vocação que se manifestaria precocemente.
Aos 16 anos, José Antônio já havia obtido seu brevê de piloto.
A paixão pela aviação também acompanhou sua vida adulta. Antes de ingressar na TAM, trabalhou no setor de táxi aéreo e acumulou experiência em diferentes aeronaves.
Em uma dessas atividades, cerca de 15 anos antes do acidente de 1996, enfrentou uma emergência durante um voo e precisou realizar um pouso forçado em Campos do Jordão, após um problema em um dos motores de um avião bimotor.
O episódio não interrompeu sua trajetória profissional.
De Mogi Mirim ao comando de um dos principais aviões da TAM
Moreno ingressou na TAM em 1987, período em que a companhia ampliava suas operações e se consolidava no transporte aéreo brasileiro.
Sua ascensão foi rápida. Em aproximadamente cinco anos, passou da função de copiloto de aeronaves Bandeirante ao comando do Fokker 100, modelo que se tornaria um dos símbolos da expansão da empresa na década de 1990.
Quando ocorreu o acidente, o comandante acumulava aproximadamente 9 mil horas de voo, sendo cerca de 3 mil no Fokker 100.
Além de pilotar voos comerciais, atuava como instrutor, participando da formação e do treinamento de outros profissionais.
Em depoimento publicado pela Folha de S.Paulo poucos dias depois da tragédia, o copiloto Milton Andari, que havia recebido treinamento de Moreno, destacou seu rigor profissional e a atenção dedicada aos procedimentos de segurança.
A experiência do comandante tornou-se um dos aspectos mais discutidos após o acidente. As investigações demonstrariam que a tragédia não poderia ser explicada simplesmente por falta de experiência da tripulação.
Uma família atingida por duas perdas em pouco mais de um mês
A morte de José Antônio Moreno ocorreu em um momento particularmente difícil para sua família. Seu irmão, João Luiz Moreno, havia morrido em 22 de setembro de 1996, vítima de câncer. Apenas 39 dias separaram as duas perdas.
O acidente também aconteceu no dia em que o pai do comandante, José dos Santos Moreno, completava 56 anos.
Conhecido como Mogiano, da dupla sertaneja ao lado de Mogianinho, ele exercia o cargo de vice-prefeito de Mogi Mirim e havia disputado a eleição municipal daquele ano pelo PTB, sem conseguir se eleger prefeito.
A notícia da queda do avião provocou comoção na cidade. O então prefeito Jamil Bacar decretou luto oficial de três dias.
José Antônio era casado com Mariangela, sua primeira namorada. Os dois se conheceram ainda crianças, quando ela passava férias em uma fazenda vizinha à propriedade da família Moreno.
O casal tinha uma filha pequena, Brenda.
Na véspera do acidente, o comandante passou parte do dia com a menina. Os dois estiveram no Shopping Center Norte, em São Paulo, onde andaram de carrossel. Mais tarde, brincaram em casa.
Na manhã seguinte, quando Moreno saiu para trabalhar, a filha ainda dormia.
O relato foi recuperado pela Folha de S.Paulo em uma reportagem publicada em 5 de novembro de 1996, que apresentou detalhes da vida familiar do comandante.
Os 24 segundos que marcaram a aviação brasileira
Na manhã de 31 de outubro de 1996, o voo 402 da TAM decolou do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com destino ao Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.
A bordo estavam passageiros que viajavam a trabalho, a compromissos familiares e a atividades profissionais, além dos integrantes da tripulação.
Poucos segundos depois de deixar a pista, a aeronave começou a apresentar problemas.
O reversor de empuxo do motor direito, dispositivo utilizado para auxiliar na desaceleração do avião após o pouso, abriu indevidamente durante a decolagem.
O sistema provocou uma condição crítica de funcionamento da aeronave, que perdeu desempenho em um momento no qual precisava ganhar velocidade e altitude.
Na cabine, Moreno e o copiloto Ricardo Luís Gomes tentaram recuperar o controle do avião.
A aeronave, entretanto, perdeu altitude e atingiu imóveis no bairro do Jabaquara, na zona sul de São Paulo, antes de se incendiar.
O acidente provocou a morte de 99 pessoas, entre ocupantes do avião e moradores atingidos em solo.
A queda ocorreu em uma região densamente povoada, próxima ao aeroporto, ampliando a dimensão da tragédia.
O cenário encontrado pelas equipes de resgate, com imóveis destruídos, destroços espalhados e incêndios, marcou os profissionais que participaram do atendimento à ocorrência.
O que a investigação revelou
A investigação conduzida pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) identificou uma sequência de falhas técnicas e operacionais relacionadas ao funcionamento do reversor do motor direito.
O equipamento, que deveria permanecer travado durante o voo, apresentou abertura indevida na decolagem.
A situação foi agravada pelo comportamento dos sistemas de controle da aeronave e pela dificuldade de identificação da falha em um intervalo extremamente curto.
Os investigadores analisaram os registros dos equipamentos de voo, os procedimentos adotados pela tripulação e as características técnicas do Fokker 100.
O relatório apontou fatores contribuintes e resultou em 34 recomendações de segurança.
Entre os desdobramentos estiveram medidas voltadas ao aperfeiçoamento dos sistemas e procedimentos relacionados ao reversor, além de mudanças destinadas a reduzir a possibilidade de ocorrências semelhantes.
A investigação também afastou a hipótese de que condições meteorológicas adversas ou excesso de peso fossem determinantes para a queda.
A apuração criminal acabou arquivada, sem responsabilização penal individual.
O acidente se tornou uma referência para estudos de segurança operacional e para a análise da interação entre pilotos, sistemas automatizados e situações de emergência.
O comandante que ajudou a pensar o futuro do aeroporto de Mogi Mirim
A ligação de José Antônio Moreno com a cidade natal não se limitava à família e à infância. Em reportagem publicada pelo jornal Diário da Manhã, em 1º de novembro de 1996, foi registrado que o comandante havia participado, cerca de dois anos antes, de discussões sobre a transferência do aeroporto de Mogi Mirim para uma área mais afastada das residências.
Segundo a publicação, o então prefeito Jamil Bacar havia solicitado sua colaboração na avaliação de locais adequados para a instalação do novo aeroporto.
O conhecimento técnico adquirido na aviação comercial era visto como uma contribuição importante para o planejamento da estrutura aeroportuária do município.
O jornal também registrou um desejo de José dos Santos Moreno: ver o filho pousar em Mogi Mirim pilotando uma aeronave da TAM. O sonho não chegou a se concretizar.
O último adeus em Mogi Mirim
O corpo de José Antônio Moreno foi sepultado em Mogi Mirim, onde viviam familiares e pessoas que acompanharam sua trajetória desde a infância.
Segundo a cobertura jornalística da época, o comandante havia manifestado à esposa o desejo de ser cremado. A família, porém, optou pelo sepultamento diante das circunstâncias relacionadas à investigação do acidente.
A despedida ocorreu em meio à comoção provocada pela tragédia e à atenção nacional voltada para a apuração de suas causas.
Para Mogi Mirim, o acidente deixou uma ligação permanente entre a história da cidade e um dos episódios mais marcantes da aviação brasileira.
Três décadas depois, a memória permanece
Neste sábado (31), o acidente com o Fokker 100 da TAM completa 30 anos. A tragédia deixou marcas profundas nas famílias das vítimas e contribuiu para mudanças na forma como o Brasil passou a discutir a segurança aérea e a assistência aos parentes de pessoas mortas em acidentes de aviação.
Entre os desdobramentos daquele período está a criação, em 1997, da Associação Brasileira de Parentes e Amigos de Vítimas de Acidentes Aéreos (Abrapavaa), que passou a atuar na defesa dos direitos das famílias e na cobrança por melhorias nos procedimentos de atendimento após tragédias.
A história de José Antônio Moreno permanece como parte dessa memória.
O comandante que cresceu observando aviões sobre uma fazenda de Mogi Mirim, conquistou o brevê ainda adolescente e chegou ao comando de uma das principais aeronaves comerciais do país teve sua trajetória interrompida aos 35 anos.
Trinta anos depois, o nome do piloto mogimiriano continua ligado ao voo 402, à investigação que mudou procedimentos de segurança e à lembrança das 99 vidas perdidas naquela manhã de outubro de 1996.
Fonte: Portal da Cidade Mogi Mirim
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