Por Elaine Navarro
Depois de falar que saúde não se resume ao peso na balança, surge uma dúvida muito comum: a pessoa começa a treinar, o peso não diminui — ou até aumenta — e a conclusão vem rápida: “devo estar ganhando massa muscular”. Mas será que é isso mesmo?
Do ponto de vista técnico, o ganho de massa muscular é um processo lento. Ele exige estímulo adequado, alimentação compatível e tempo. Não acontece de forma significativa em duas ou três semanas. O corpo precisa de repetição, adaptação e constância para começar a construir tecido muscular de verdade.
Principalmente no início, o que ocorre não é hipertrofia relevante. O que acontece é adaptação neuromuscular. O corpo aprende a executar melhor os movimentos, melhora coordenação, força inicial e recrutamento muscular. Isso dá a sensação de evolução, mas não representa aumento expressivo de massa.
Outro ponto importante é a retenção de líquido. Quando a pessoa inicia o treino, especialmente musculação, ocorre um processo inflamatório natural das fibras musculares. Isso pode gerar retenção hídrica temporária, o que impacta diretamente o peso na balança. Ou seja, aquele aumento inicial pode não ter relação com ganho de músculo, mas sim com adaptação do corpo ao novo estímulo.
Além disso, se a alimentação não está ajustada, o cenário muda completamente. Sem controle alimentar, é possível iniciar o treino e, ainda assim, não emagrecer. Em alguns casos, até ganhar gordura corporal. O treino não anula uma alimentação desorganizada.
Existe também um fator comportamental importante. Quando a pessoa começa a treinar, muitas vezes aumenta o consumo alimentar com a justificativa de “estou gastando mais”. Se esse aumento não for bem direcionado, o resultado pode ser o oposto do esperado.
Ganhar massa muscular de forma consistente exige estratégia. Envolve ingestão adequada de proteína, controle calórico, treino com sobrecarga progressiva e, principalmente, tempo. Sem esses pilares, o corpo não constrói músculo de forma relevante. Isso não significa que o processo não esteja funcionando. Significa que ele precisa ser interpretado corretamente.
Outro ponto essencial é a ausência de acompanhamento adequado. Sem avaliação de composição corporal, medidas periódicas ou até registros visuais, a pessoa passa a depender exclusivamente do peso para analisar o progresso. Isso limita a interpretação e abre espaço para conclusões equivocadas. O corpo pode estar evoluindo, mas sem parâmetros claros, a percepção fica distorcida. Por isso, o acompanhamento com profissionais de nutrição e educação física faz diferença: ele traz direcionamento, ajuste de estratégia e uma leitura mais precisa do que realmente está acontecendo.
Nem toda mudança aparece na balança imediatamente. Mas nem todo aumento de peso é músculo. Entender isso evita frustração e, principalmente, decisões equivocadas.
Elaine Navarro é nutricionista especializada em bariátrica e transtornos alimentares e Guarda Civil Municipal de Mogi Mirim