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A geração ativa e a ilusão do atalho

Crescimento da musculação entre jovens impulsiona hábitos saudáveis, mas também expõe os riscos da busca por resultados imediatos

Publicado em 30/05/2026 às 08:17

Por Guilherme Tartaro (EVERE GYM)

Se você entrar em uma sala de musculação hoje, o cenário é completamente diferente daquele de dez ou quinze anos atrás. Onde antes dominavam adultos focados em estética ou recomendações médicas, hoje vemos uma invasão massiva de jovens. A musculação deixou de ser apenas um "lugar para puxar ferro" e virou cuidado pessoal para as novas gerações.

Os números confirmam que esse fenômeno veio para ficar. O relatório global Fitness Report revela que 30% da Geração Z já frequenta ativamente academias — uma taxa muito superior à média histórica da população adulta. Segundo a Health & Fitness Association (HFA), a faixa entre 18 e 34 anos já representa mais de 31% do total de matrículas no mundo. No Brasil, dados da plataforma Ticket Sports reiteram que, para esses jovens, o exercício é uma extensão direta de sua identidade e bem-estar.

No entanto, essa busca incansável pela saúde esbarra em uma mentalidade perigosa: o culto ao corpo perfeito alimentado pela pressão estética digital. O treino, que deveria ser uma ferramenta de longevidade, virou pano de fundo para resultados que a biologia humana, em seu estado natural, não consegue entregar no tempo exigido pelo feed do Instagram. É aí que a linha entre a saúde e o perigo se desfaz.

Recentemente, o Brasil assistiu em choque à morte súbita do jovem fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, de apenas 22 anos, vítima de uma cardiomiopatia hipertrófica (espessamento patológico do músculo cardíaco). Meses antes, ele havia reconhecido na internet que sua escolha por "deixar de ser natural" encurtaria sua vida em mais de uma década. O coração dele parou bem antes disso.

Esta tragédia não é um caso isolado, mas o sintoma agudo de uma epidemia silenciosa: a banalização dos esteroides anabolizantes induzida pelo imediatismo. Dados compilados pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) apontam que o uso dessas substâncias entre estudantes do último ano do ensino médio saltou assustadores 84% nas últimas décadas. Mais alarmante ainda: pesquisas de prevalência no Brasil mostram que a taxa de frequentadores de academia que já usaram ou usam esteroides oscila entre 11% e 31%. Na prática, em quase qualquer horário, uma a cada dez pessoas ao seu lado pode estar utilizando hormônios sem necessidade clínica.

O jovem de 20 anos frequentemente se sente invencível. O ganho de massa acelerado esconde o preço invisível cobrado do lado de dentro. Enquanto o bíceps cresce, o fígado sofre, o colesterol se descontrola e o ventrículo esquerdo do coração hipertrofia — tornando-se rígido, ineficiente e propenso a arritmias e à morte súbita.

Como profissional de saúde há 16 anos e ex-atleta de fisiculturismo, vejo de forma positiva a expansão desse movimento wellness, principalmente no que tange à nova geração que, por conta da tecnologia, tinha tudo para se render ao sedentarismo. Porém, precisamos ter cautela com os conteúdos que consumimos e com as pessoas pelas quais estamos sendo influenciados. Precisamos parar de aplaudir o que infla os músculos hoje, mas silencia corações amanhã. A estética nunca deve custar a sua vida.

Guilherme Tartaro é personal trainer com mais de 15 anos de experiência, ex-atleta de fisiculturismo com diversos títulos, empresário e já escreveu artigo científico sobre emagrecimento que foi publicado em uma revista internacional

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