Por João Victor Gasparini, vereador em Mogi Mirim
Na última semana, o Portal Cidade de Mogi Mirim publicou uma matéria sobre as condições do Centro da cidade. Enquanto se tenta recuperar a movimentação da Rua XV de Novembro por meio de reformas que alteram o nivelamento do asfalto, a Rua Padre Roque, principal via municipal, também convive com um cenário preocupante: lojas fechadas e queda no fluxo de consumidores.
Por se tratar de um tema de grande comoção, a matéria gerou discussões e reações de boa parte dos leitores. Como costuma acontecer no debate público mogimiriano, surgiram culpabilizações aos montes: do vendedor ao dono da loja, do vereador ao presidente da República. Responsáveis para todos os gostos, deixando de lado a complexidade do problema.
Tenho batido na tecla de que, no debate público municipal, por uma série de razões, fecha-se os olhos para tudo o que acontece fora de Mogi Mirim. É como se a cidade fosse uma ilha isolada, afetada única e exclusivamente pelas ações tomadas dentro de seu território. Essa visão empobrece qualquer análise.
A tentativa de projetar a “morte” do Centro prejudica, antes de tudo, o próprio comerciante que ainda resiste e trabalha na região central da cidade. Um setor regionalizado, que movimenta a economia local e emprega milhares de pessoas (minha mãe é vendedora de calçados na rua José Bonifácio, por exemplo), apesar dos percalços recentes, não pode ser tratado como se estivesse morto — porque, não, ele não está.
É evidente que as lojas e o Centro já não têm o mesmo movimento de outros tempos. E essa não é uma constatação brilhante: qualquer pessoa que frequente a região percebe isso. E ainda menos brilhante é traçar diagnóstico simplista a essa percepção, ignorando todo o cenário global que está transformado.
O fluxo comercial mudou profundamente nos últimos 15 anos, tendo se alterado com mais intensidade por uma pandemia que muitos deixam de lado nas análises socioeconômicas, como se fosse um acontecimento qualquer. Não foi. Há toda uma geração que se habituou a comprar por plataformas digitais, enquanto gerações que não cresceram com esse modelo comercial envelhecem e, naturalmente, deixam de conservar antigos hábitos de consumo.
Além da questão digital, há também o aspecto urbano. Antes, o Centro concentrava praticamente todas as opções comerciais e de convivência da cidade. Com a expansão demográfica, os bairros passaram a ganhar força própria. Eu, mesmo, moro na Avenida Expedito Quartieri e encontro na Vila Dias praticamente todas as opções comerciais de que preciso no dia a dia, de medicamentos em farmácias a roupas. Da mesma forma, um morador do Tucura encontra diversas opções ao longo da Avenida Pedro Botesi.
A Vila Dias, aliás, oferece uma pista importante para o debate sobre o Centro. Por ser uma das regiões mais populosas da cidade, mantém comércios abertos durante todo o dia e, em muitos casos, também à noite. Isso acontece porque há vida no bairro o tempo todo. Onde há gente circulando, há comércio. Onde há moradia, há consumo.
Tenho dito isso na Câmara desde que me elegi: a única forma de o Centro ganhar vida novamente é levando gente para lá. O Centro da cidade concentra muitos imóveis nas mãos de poucos proprietários e tem pouca gente morando na região. Além disso, historicamente, parte dos próprios moradores e proprietários sempre foi resistente à criação de novas habitações. Hoje, temos menos de dez opções prediais residenciais no perímetro descrito no Plano Diretor como Centro Comercial 1, um absurdo para qualquer município de médio porte.
A conservação desse status quo no bairro central sempre se deu pelos próprios moradores. Historicamente, proprietários da região sempre demonstraram residências a novas moradias, bem como a comércios de longa duração, como bares, restaurantes e estabelecimentos capazes de atrair pessoas para além do horário comercial tradicional. E são exatamente essas as duas chances de recuperação do Centro: residências e comércios gastronômicos.
Justamente com essa visão que, ao lado da vereadora Mara Choquetta – comerciante de lojas do Centro por mais de 30 anos -, nosso mandato apresentou dois projetos de lei essenciais para a cidade: um que permitiu a instalação de mesas e cadeiras em praças públicas e outro que criou regramento próprio de fiscalização para a atuação comercial na região. Naturalmente, ambas as iniciativas sofreram resistências, mas foram aprovadas pela Câmara.
Dois estabelecimentos usufrutuários dessa legislação são exemplos claros de um sopro de vida noturna no Centro: a Cali Skateshop, no Jardim Velho, e o Happy Beer, na Praça Rui Barbosa. Ambos asseguram circulação de pessoas em locais outrora perigosos em razão do vazio. São avanços claros e significativos em um intervalo de quatro anos, mas que são ignorados por aqueles que somente criticam porque o debate público mogimiriano é pautado por ressentimentos e memória seletiva, sem contar a amargura de quem não celebra esses avanços ocupando espaços da cidade que sempre foram ociosos e hoje são vividos por novas gerações.
Além disso, no novo Plano Diretor, relatado na Câmara por nosso mandato em 2022 após anos de suspensão por Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público (MP), foi adotada uma postura de estímulo a empreendimentos imobiliários na região central. Também ao lado da vereadora Mara Choquetta, nosso mandato incluiu, na malfadada nova Planta Genérica de Valores, possibilidades de benefícios tributários para quem promover a revitalização de imóveis antigos, de modo a conservar com utilidade os poucos casarões restantes das épocas douradas do Centro. A mesma lógica vale para aqueles que empreenderem estabelecimentos gastronômicos e conjuntos imobiliários. Com a estrutura legal em vigor, cabe agora ao Executivo regulamentar e aplicar esses instrumentos.
Entre as possibilidades de revitalização, é importante citar o Museu de Artes de Mogi Mirim (MAMM), que foi tombado, revitalizado e hoje abriga um dos poucos museus privados do interior de São Paulo, com programação cultural diversa e até um restaurante libanês – com pratos deliciosos, por sinal. É um exemplo concreto de como patrimônio histórico, cultura, gastronomia e ocupação urbana podem caminhar juntos.
Outra medida importante para movimentar o Centro está nos eventos culturais realizados na Praça da Matriz e na praça do Centro Cultural. Ainda assim, confirmando a desconexão entre quem reclama, quem pede melhorias e quem efetivamente convive com a região central, moradores do entorno da Avenida Santo Antônio chegaram a organizar abaixo-assinado contra a programação constante no local, bem como durante a construção do novo espaço, houve até quem recorresse ao MP contra o projeto, alegando a necessidade de conservação das ruínas do antigo centro de saúde.
Dentro da programação cultural, uma sugestão viável seria a criação de um modelo de free walking tour mensal, com visitas guiadas pela Igreja Matriz, pelas praças, pelos casarões antigos e pelas ruas que carregam nomes de personagens que ajudaram a moldar a bonita história de Mogi Mirim. O Centro precisa ser visto não apenas como local de passagem, mas como espaço de memória, identidade, convivência e pertencimento.
Medidas paliativas, como a reforma da Rua XV de Novembro, não são suficientes para retomar a vitalidade de outrora. Ainda assim, são importantes para dar novo frescor à região e atender a uma demanda visual e prática dos próprios comerciantes. Mas a obra, sozinha, nada resolverá se não vier acompanhada de uma política eficiente de ocupação da região central.
Da Câmara, demos coordenadas importantes por meio de legislações modernas e eficientes. Agora, cabe ao Executivo cumprir sua função: regulamentar os instrumentos existentes, estruturar uma política pública de ocupação e assumir que revitalizar o Centro não é apenas trocar calçada, nivelar asfalto ou pintar fachada. Revitalizar o Centro é fazer com que as pessoas voltem a viver, circular, consumir, permanecer e se reconhecer naquele espaço.
Um debate complexo como esse, envolvendo diversos interesses e agentes, tem que ser tratado com seriedade que muitas vezes o debate público em Mogi Mirim não demostra. O ressentimento toma lugar da evidência. Tudo gera contenda, ao mesmo tempo em que nada parece repercutir. Pelo menos, é assim que se apresenta a cidade cujo enfoque do último fim de semana foi um parklet na vaga de estacionamento de um bar, enquanto uma Bienal Literária com artistas do Brasil inteiro era sediada.