Portal da Cidade Mogi Mirim

CRISE NO COMÉRCIO

Crise no comércio avança e expõe esvaziamento da Padre Roque

Fechamento de lojas tradicionais, imóveis vazios, aluguel alto, e-commerce e fuga de consumidores para shoppings pressionam o comércio de rua

Publicado em 22/05/2026 às 08:16

O comércio de rua de Mogi Mirim vive um novo sinal de alerta. Depois da Rua 15 de Novembro, onde obras, queda de movimento e portas fechadas já vinham chamando atenção, o cenário de esvaziamento agora avança pela Rua Padre Roque, especialmente no último quarteirão antes da chegada à Praça Rui Barbosa, coração histórico e comercial da cidade.

No trecho, a reportagem identificou 17 lojas abertas e 13 estabelecimentos fechados, entre imóveis vazios, pontos desativados e comércios tradicionais que encerraram atividades. A imagem é de perda de vitalidade em uma das áreas mais simbólicas do Centro.

A crise, no entanto, não tem uma única causa. Corretores de duas imobiliárias ouvidos pelo Portal da Cidade afirmam que os valores de aluguel ainda são um obstáculo para parte dos comerciantes, mas avaliam que o problema é mais amplo.

“O aluguel pesa, principalmente para quem tem loja pequena. Mas hoje o lojista enfrenta também queda no consumo, concorrência da internet e dificuldade para manter funcionário. O ponto sozinho já não garante venda”, disse um corretor ouvido pela reportagem.

Outro profissional do setor imobiliário afirma que a procura por salas comerciais no Centro diminuiu. “Antes, abrir loja na Padre Roque ou na região da Praça era uma escolha quase natural. Hoje, muita gente faz conta e desiste. O comércio eletrônico mudou o jogo, e o consumidor também mudou.”

O avanço das compras online é um dos fatores centrais. Segundo o Sebrae, as vendas de pequenos negócios no comércio eletrônico cresceram 76% em três anos, enquanto o e-commerce brasileiro movimentou R$ 225 bilhões em 2024. A própria FecomercioSP já aponta que o futuro do varejo passa pela integração entre loja física e canais digitais, no modelo conhecido como “online to offline”.

Na prática, isso significa que o pequeno comerciante de Mogi Mirim não disputa apenas com a loja vizinha. Disputa com grandes plataformas, shoppings de cidades da região, entregas rápidas, vitrines digitais e consumidores cada vez mais acostumados a comparar preços pelo celular.

Enquanto isso, a resposta institucional parece aquém da gravidade do problema. O Portal da Cidade procurou o presidente da ACIMM, Nelson Theodoro Júnior, por meio da assessoria de imprensa da entidade, com questionamentos sobre fechamento de lojas, perda de postos de trabalho, vacância comercial, comércio eletrônico, ações de fortalecimento do Centro e resultados de eventos realizados na Praça Rui Barbosa. Até o fechamento desta reportagem, não houve resposta.

A ausência de posicionamento reforça uma cobrança recorrente entre comerciantes: a de que a Associação Comercial tem concentrado esforços em eventos pontuais na praça, mas ainda não apresentou um plano público, permanente e mensurável para enfrentar o esvaziamento do comércio de rua.

Eventos podem atrair público em datas específicas. Mas a crise da Padre Roque mostra que movimento eventual não basta para manter portas abertas. O desafio parece exigir diagnóstico, digitalização dos lojistas, negociação sobre ocupação de imóveis vazios, articulação com o poder público, melhoria urbana, segurança, estacionamento e uma estratégia real para reconectar o Centro ao consumidor.

Sem isso, o risco é que a Padre Roque repita, em ritmo acelerado, o que já preocupa na Rua 15 de Novembro: a transformação de antigos corredores comerciais em vitrines apagadas de uma cidade que ainda não decidiu como quer salvar o próprio Centro.

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