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ENTREVISTA

Câncer, a doença do século 21?

Doença cresceu consideravelmente nos últimos anos e que acomete indistintamente crianças, jovens, adultos e idosos

Postado em 07/02/2020 às 10:27 |

Dr. Guilherme: doença cresceu consideravelmente nos últimos anos e que acomete indistintamente crianças, jovens, adultos e idosos (Foto: Nelson Victal do Prado)

O médico oncologista João Guilherme Zétula concedeu entrevista exclusiva para falar sobre o câncer, a doença que cresceu consideravelmente nos últimos anos e que acomete indistintamente crianças, jovens, adultos e idosos.  

Na ocasião, ele falou sobre o futuro da doença e a possibilidade de se tornar crônica e deixar de ser algo tão temido. Também deu dicas importantes que podem ajudar as pessoas a levar uma vida mais saudável e garantir a longevidade. Destacou entre outras coisas a necessidade de rever hábitos e de prevenir.

Em 2018, somente para se ter uma ideia foram registrados 68.220 novos casos de câncer de próstata, o que equivale a 31,7% de aumento da doença entre os homens. Já nas mulheres, o câncer de mama registrou 59.700 novos casos, o que representa 29,5 novos casos no país.

A julgar pela explosão no número de casos, o câncer tende a ser a doença do século 21?

Dr. João Guilherme Zétula – Não. Na minha opinião ainda não! As doenças que mais assolam a população brasileira ainda são as cardíacas como o acidente vascular cerebral (AVC), infarto agudo do miocárdio e insuficiência cardíaca. Se você me perguntar se é uma doença que vem aumentando gradativa e crescentemente, o câncer é. Mas não acredito que seja a doença do século 21. Tem muito dessa tendência por falta de mais diagnósticos. Portanto, o coração ainda mata mais. Devemos lembrar que tudo que causa câncer também contribui com a parte cardiológica.

É possível dizer que a alimentação, o estresse e o cotidiano da vida moderna são responsáveis por essa explosão?

Dr. João Guilherme Zétula – Com certeza isso tudo é responsável pelo boom no número de casos de câncer. Os fatores do cotidiano, o estresse, contribui bastante para a evolução dos casos. Nosso organismo acaba sendo bombardeado pelo estresse e pela liberação de radicais livres. Essa célula entende tudo isso como um defeito na pessoa de mal com a vida, depressiva.

A alimentação impregnada de agrotóxicos, os alimentos com conservantes e o meio ambiente poluído também prejudicam?

Dr. João Guilherme Zétula – Hoje nós somos bombardeados direta e indiretamente pela poluição ambiental, e não tem como falar que não, pois temos uma parte social bem complicada. Os enlatados, os condimentos, todos os nossos embutidos nos prejudicam. Infelizmente nós não temos uma cultura, como ocorre na Europa onde se come queijos, presuntos. Com isso nós acabamos comendo errado. Só para se ter uma ideia, no Japão, o índice de câncer de estômago é o maior do planeta. Você pode se perguntar: mas como, se a alimentação básica deles é peixe? O problema não está no peixe, mas no conservante desse peixe. Nessa lista de alimentos que podem causar a doença estão os conservantes, embutidos e gordura são os grandes vilões do câncer de mama, câncer de colón e reto, câncer de todo aparelho gastrointestinal, câncer de estômago. A gente não vê câncer de estômago em jovens. Outro detalhe que se deve levar em consideração é que as pessoas estão malhando mais, mas em contrapartida estão utilizando mais anabolizantes e aumentam o número de casos de câncer de rim e de fígado.

Usar alimentos diet ou light é saudável?

Dr. João Guilherme Zétula – Vale destacar que tais alimentos utilizam muito sódio, às custas de outro degradante do organismo. Em suma: a gente arruma uma coisa e estraga outra. Hoje os laboratórios estão bem ligados nos hábitos alimentares. Antigamente não se ouvia falar de câncer de rim e hoje isso se tornou muito comum. Tanto que já se desenvolveu drogas para câncer de rim. Antigamente se ouvia falar somente de câncer de mama e próstata, mas hoje o patamar é mais vasto. Então, na minha opinião a comida é o fator primordial.

A questão genética não tem sua contribuição para o câncer?

Dr. João Guilherme Zétula – Mas o câncer é uma mutação genética, mas hereditário equivale a 5% ou 10% e isso é muito pouco. O câncer hereditário é aquele da Angelina Jolie que passou o gene de mãe para filha ou passou o gene da próstata, ou do gene do melanoma. Isso tudo representa apenas 5%. Ainda temos 95% de tumores que sabemos muito bem a origem. Sol: câncer de pele simples é o que menos mata; gordura: tubo gastrointestinal e mama; cigarro: pulmão esôfago, cabeça, pescoço e língua; alcoolismo: hepatocarcinomas, cânceres de fígado. Nós conhecemos os fatores, mas hoje em dia nós vemos caminhando um novo vilão: atualmente a gordura se tornou um vilão tão grande para o câncer de mama, cólon e reto, assim como o cigarro é para o pulmão.

Pensando dessa forma, a população deve reestudar a alimentação?

Dr. João Guilherme Zétula – Não somente devemos reestudar a alimentação, como precisamos nos policiar, e eu me incluo nisso. Afinal, nós comemos mal, comemos rápido e em horários muito loucos. Nós sabemos que comer bem tem um custo, que a alimentação orgânica, aquela que é livre de agrotóxico, é cara e infelizmente não chega às mesas de todo mundo. Não é tão simples chegar ao supermercado agora e comprar tudo orgânico. Uma carne, por exemplo. A proteína é necessária, a carne de porco não é uma vilã sozinha, mas ela se torna se for feita em excesso. Tudo que é feito em excesso pode ser prejudicial. Será que se, eu comer alface em excesso não trará malefícios?

Algumas linhas garantem que a raiva, a mágoa e outros sentimentos acabam somatizando e dando origem à doença. Você concorda?

Dr. João Guilherme Zétula – Não concordo talvez com a origem, mas concordo com o fator somatório. A origem é muito difícil saber cientificamente. É preciso se basear em algo científico. Cientificamente não acredito que cause o câncer, mas acredito que somatiza tudo que eu tenho de defeito. Se a pessoa já está comento errado, está ultraestressado, com muitos problemas financeiros, familiares, sociais e depressivo. A pessoa fatalmente enfartará ou desenvolverá um tumor como forma de espantar os problemas que possui dentro do corpo. Ele está judiando do organismo tanto física quanto psicologicamente.

O tratamento do câncer avança na mesma proporção da doença?

Dr. João Guilherme Zétula – O avanço tecnológico não vem contra a medicina, muita gente acha que os médicos e as enfermeiras perderão seus empregos. Muito pelo contrário, a robótica e a tecnologia hi-tech vieram para ajudar com os diagnósticos precoces, como é o caso do pet scan que o Hospital 22 de Outubro inaugura este ano. Hoje temos equipamentos cada vez mais modernos como a ressonância magnética, tomografia de alta resolução e os programas de prevenção, que em minha opinião é o mais importante: prevenir para não ter. Cito como exemplo o câncer de colo de útero. Hoje fazemos as vacinas anti-HPV para evitar novos casos. No passado, mulheres de uma faixa social desenvolviam a doença e muitas morriam com câncer no colo do útero.

A medicina oferecerá no futuro opções de terapias que possam tornar o câncer uma doença crônica e garantir a sobrevida?

Dr. João Guilherme Zétula – Pode! Não acredito que todos, afinal não podemos falar que o câncer é uma doença única. É multifatorial, são vários fatores conjuntos, são vários cânceres dentro da palavra câncer. O câncer de mama tem a biologia diferente do câncer de fígado, que também é diferente do câncer de pulmão, que é diferente do câncer de cérebro que é diferente de todos os cânceres hematológicos, leucemias, linfomas. Portanto, a tendência é ter tantas drogas oncológicas, neoplásicos para manter esse paciente vivo com qualidade de vida, que o paciente morrerá de outra coisa. Menos do câncer. No futuro, tende a ser uma doença crônica, mas não para todos os tumores. A comunidade científica está a anos luz do tratamento de determinados tipos de tumores malignos, agressivos. Nós ainda não temos armas.

Que mensagem fica para os leitores, depois desta entrevista?

Dr. João Guilherme Zétula – Acho que o que as pessoas podem fazer de melhor é viver, é aproveitar a vida, viver em família, viajar, comemorar, trabalhar a cabeça. Ter uma vida regrada. O estigma do câncer já caiu, e hoje as chances de tratamento e sobrevida são grandes. Além disso, as pessoas precisam ficar atentas para as histórias boas e não apenas focar nas notícias ruins. Todos os dias morrem muitas pessoas, mas muitas outras se curam da doença.


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